Olá,
agora não passou muito tempo, talvez tudo que te escrevo se torne um relicário
esquecido, na verdade eu nem sei como você ler isto, mas tudo bem, vou
escrever, mesmo sabendo que você já sabe disto enquanto ainda as palavras
estavam em meus pensamentos. Sei também que você sabe tudo sobre mim, aliás,
bem melhor do que eu. Sendo assim meus vícios também estão em seu arcabouço,
todos eles, expostos como uma ferida aberta. Cada um impõe sobre mim seu
domínio, perdendo correntes e mais correntes em minhas mãos. Todas elas me
puxam pra baixo de forma que eu não olho mais pra cima de maneira que a muito
não te vejo. De vez em quando me sinto livre dessas algemas são momentos, às
vezes dias, mas logo depois volto a me prender ao que me mata. Na verdade, todos
nós viciados somos como cães de rua, podemos até achar um lar onde tem comida
boa, água fresca, até algum afago. Mas a dependência da aparente liberdade fora
das paredes da casa nos chama a voltar diariamente para o turbilhão de
sensações que sentíamos antes, e que eventualmente nos fazes falta, então,
novamente como cachorros comemos aquela porcaria gordurosa que por instantes achávamos
que vamos morrer se não saciar esse desejo. Outro hábito que compartilhamos com
os cachorrinhos é o de comer o nosso próprio vômito. Sim, nos arrependemos de
fazer isso tudo, mas paradoxalmente nos arrependemos do arrependimento e
comemos tudo que foi regurgitado antes. Daí você me pergunta o que têm isto a
ver com amor, afinal esta carta deveria tratar disto. Sinceramente eu não sei
te responder isto a não ser com outra pergunta: Como pede alguém perfeito como
você amar um ser tão asqueroso como eu? Eu não faço ideia, aliás, não entendo
como qualquer pessoa pode me amar, nem eu me amo tanto assim. Mas sei que seu amor
é real, eu apenas o recebo, sei que ele é capaz de me transformar. Desculpa por
não o retribuir como deveria, e obrigado por se comparecer por este cão
sarnento, espero te ver em breve, um abraço. Te amo!
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